Ensaios - Mudança Inadiável - Faust Arquitetos

A mudança inadiável

Inquietações acerca do impacto da indústria da construção civil e das lógicas que estruturam o seu funcionamento.

12 de jan. de 2026

Reimaginar, subverter e, sobretudo, superar a lógica produtiva do mercado da construção civil brasileiro deixou de ser urgente. Tornou-se inadiável. A chave a ser virada está no olhar sobre o ciclo de vida da edificação. Compreender que a execução é apenas uma parte da sua permanência, e que, na prática, é a operação que mais consome recursos do planeta. Compreender isso muda radicalmente o ponto de partida. Não se trata de reduzir a importância da obra. Pelo contrário, trata-se de olhar para ela com ainda mais atenção, sobretudo sob outras lentes. É dar dois passos para trás para avançar dez. Tudo começa no projeto, em todas as suas disciplinas, inclusive na incorporação de novas frentes que se debrucem sobre o custo operacional do objeto depois de pronto. Precisamos então entender o fio condutor do que nos trouxe até aqui para corrigirmos a rota do nosso mercado. 

Entre o imprevisível e o previsível: o papel da arquitetura

A arquitetura nasce da necessidade de abrigo. De abrigar a família, as atividades comerciais, as relações sociais, a própria vida humana. Paulo Mendes da Rocha nos lembrava, com sabedoria, que a arquitetura deve amparar a imprevisibilidade da vida, isto é, a constante transformação das relações humanas, da sociedade e dos avanços tecnológicos. E estava certíssimo. Ainda assim, de forma humilde, acredito que precisamos também atribuir à arquitetura a responsabilidade de suprir aquilo que é previsível e que, até o momento, parece seguir amplamente ignorado: eficiência energética, conforto térmico e custo operacional. Todos os dias acordo e, antes de sair, consulto a previsão do tempo. Gosto de entender quais vestes devo escolher para atravessar o dia com conforto, sem frio ou calor excessivos e sem as angústias que esses extremos nos causam. A intenção é simples: não depender de fontes artificiais de aquecimento ou resfriamento, deixando que as roupas deem conta do recado durante a maior parte do dia. No máximo um copo de água gelada ou um cafézinho quente pra ajudar. De maneira igualmente simples, me pergunto: por que não pensamos a arquitetura sob essa mesma lógica? Antes de qualquer movimento. de qualquer rabisc, compreender o clima do lugar onde iremos edificar, para que a construção interaja com suas variações de forma passiva, sem recorrer a dispositivos que demandem ainda mais energia. Veja, a execução de uma obra já é desprendimento / investimento energético brutal, por isso deve ser o máximo eficiente quando estiver pronta e operante. 

O que nos trouxe a este cenário?

A resposta está justamente na ótica lançada sobre o produto final, a resultante da execução: o imóvel. Quando olhamos a arquitetura como abrigo, pensamos em eficiência, em ambientes frescos nos dias quentes e protegidos do frio quando as temperaturas caem, idealmente sem a dependência de climatizadores ou aquecedores. No entanto, quando a edificação é vista primordialmente como produto para venda, são a planilha de custos e os desejos mercadologicamente construídos, alimentados por um fluxo incessante de informações e imagens comandadas por algoritmos, que passam a ditar o que será executado. De forma fria e crua, prevalece a lógica de construir pelo menor custo possível, visando apenas a viabilização inicial do empreendimento, atender desejos estéticos e o simples tirar do papel. 

Nesse modelo, a responsabilidade do projetista e do construtor costuma ser considerada praticamente encerrada no momento da entrega das chaves, restando apenas as garantias e responsabilidades técnicas legalmente obrigatórias. O custo operacional da edificação não recai sobre eles, mas sobre o(s) novo(s) proprietário(s). O problema é que, quando essa lógica se repete milhares de vezes, o custo acumulado não é individual, mas coletivo. Ele recai sobre a sociedade como um todo e sobre os recursos comuns a todos nós.Trata-se de uma lógica injusta, que direciona o mercado a enxergar a construção, sobretudo na incorporação imobiliária, como uma grande planilha de obra e valor geral de vendas, ignorando quase por completo quanto o comportamento da edificação continuará a custar muito além do momento da compra e para além de seus proprietários.

Possíveis rotas

Não há aqui a pretensão de apresentar respostas definitivas para esse impasse. O texto nasce, antes, do acúmulo de inquietações formadas na prática diária e no contato com outras realidades. Reconhecendo a complexidade do tema, ainda assim acredito que existam pontos de partida plausíveis que podem contribuir para mudanças efetivas. Um deles é transformar o custo operacional da edificação pronta em argumento de venda, em item de planilha, em normativa. Tornar visível aquilo que hoje permanece diluído é, talvez, um primeiro passo para que sistemas construtivos inteligentes, capazes de responder ao que é previsível, se tornem corriqueiros e, então, cada vez mais acessíveis.

Hoje, o principal instrumento para balizar essa discussão é a norma de desempenho. Ela representa, sem dúvida, um avanço importante. No entanto, seu conteúdo ainda é pífio diante da complexidade do problem que se propõe a regular em um país continental. Ao estabelecer parâmetros mínimos, a norma acaba por legitimar desempenhos que pouco dialogam com a qualidade do habitar e com o impacto energético das edificações ao longo do tempo. Um exemplo simples está no conforto térmico. De forma simplificada, sem desmerecer a norma ou o trabalho dos especialistas, mas apenas para fins ilustrativos, ela basicamente admite uma variação de 2 a 3 graus entre o ambiente externo e o interno. Isso significa que, se a temperatura externa estiver em 33 °C e a interna também atingir 33 °C, a edificação ainda assim é considerada em conformidade. Diante disso, projetos que demonstrar atendimento aos critérios normativos, são aptos a financiamentos e à sua comercialização como produto imobiliário.O mesmo vale para o inverso: 0 grau externo e 3 internos. Caro leitor, isso lhe parece razoável? Gostaria de habitar um espaço cuja eficiência se limita a esse intervalo? Mais do que uma questão de sensação térmica, trata-se de energia, de custo operacional e de uma arquitetura que se exime de responder de forma mais profunda ao clima em que se insere. Então melhorar as normas brasileiras pode ser um dos caminhos que podem contribuir com a correção de rotas.

Podemos também olhar para determinadas experiências internacionais e identificar práticas profissionais mais efetivas. Como a do escritório irlandês Grafton, ou do Breathe Architecture, na Austrália, que já apontam nessa direção. O Grafton, por exemplo, escritório vencedor do Prêmio Pritzker, mantém um departamento interno dedicado exclusivamente à análise do custo operacional das edificações que projeta. Não como apêndice, mas como parte estruturante do processo de projeto. Tomei conhecimento disso por meio da série Architects Series, do Iris Ceramica Group, no YouTube, que recomendo assistir. São exemplos que indicam que considerar o desempenho ao longo do tempo não é utopia, mas escolha.  Agora, mais do que nunca, é preciso olhar para frente. Vivemos um momento ambientalmente crítico. O planeta sempre esteve aqui; o que mudou foram os seus habitantes. A humanidade se perpetuou graças à sua capacidade de raciocinar e se adaptar, e chegou a hora de colocar essas habilidades em ação novamente.